Este texto, infelizmente não fui eu quem escrevi. Sabe aquele texto que vc diz: "nossa, tão perfeito! Queria tê-lo escrito!" Pois esse é um deles. O autor é JOSÉ PASSINI, ex-reitor da UFJF (1990-94), e doutor em Linguística Pela UFRJ. Mesmo não tendo sido eu o escritor, pela falta de tempo, e por tudo o que me liga a esse texto, ei-lo aqui. Fui eu que convidei o Passini para escrevê-lo, para o Jornal DuCave, jornal do cursinho que fiz no terceiro ano, época do PISM. E tb conversei com a coordenadora do jornal. No fim deu tudo certo, e esse texto magnífico foi publicado. Por sinal, ela tb ficou admirada pelo texto.
Té mais!
Vinicius
COMUNICAÇÃO MUNDIAL
José Passini
O mundo está, desde há algum tempo, assistindo ao nascimento de uma consciência planetária, global. Hoje, os povos que ainda não aprenderam a repartir seus bens já repartem e compartilham pelo menos os seus problemas. Nasce no ser humano uma idéia de pertencimento a uma comunidade que transcende os limites estreitos da sua nação. O homem já vislumbra um mundo onde o empenho da inteligência seja também voltado ao estabelecimento e ao cultivo de um clima de paz. O surgimento de uma consciência planetária é mais que desejável, é mesmo imprescindível à sobrevivência do homem na face da Terra.
Essa consciência de pertencimento a uma comunidade que deve sobrepor-se aos limites nacionais representa uma nova dimensão na própria história da raça humana. Mas, para que essa postura auspiciosa do ser humano diante do mundo se acelere e se torne uma realidade é necessário que se aproveite o efeito unificador, aglutinador de um idioma comum, como existe na intimidade das nações. Entretanto, o uso desse idioma, não poderá pôr em perigo o cultivo dos valores nacionais, pois aceitar oficialmente o idioma de outro povo como segunda língua é elevar o país de origem desse idioma à condição de metrópole intelectual. É submeter-se-lhe psicologicamente, aceitando sua influência política e a sua cultura, no sentido mais abrangente do termo. Portanto, eleger, em âmbito mundial, uma língua natural para o desempenho da tarefa de interlíngua é conceder ao povo que a fala como nativo uma série de prerrogativas contra as quais se insurgiriam os demais povos, a argüirem o mesmo direito de não serem obrigados às despesas e aos esforços necessários ao aprendizado de uma língua estrangeira.
Deve ficar muito claro que não se defende, ao pôr-se em relevo a gravidade desse problema, um nacionalismo absurdo, fechado às idéias renovadoras vindas do exterior. É de senso comum que nenhum país pode progredir de forma apreciável, se fechado ao confronto salutar com as idéias geradas em outras culturas. O que se busca demonstrar é o perigo de uma descaracterização nacional como conseqüência da forte influência de uma determinada cultura, aceita, às vezes, inconscientemente, através da adoção da língua de um outro povo como segunda língua.
Cientes do estreito relacionamento entre língua e poder, as nações econômica e politicamente poderosas concentram grandes esforços e despendem enormes recursos financeiros no sentido de difundirem e, até certo ponto, imporem seus idiomas para uso internacional, visto serem inegáveis os rendimentos em prestígio político e as vantagens econômicas que retornam como altos dividendos, em razão de investimentos bem aplicados.
Isso não acontecerá se adotada uma língua neutra, pois as influências recebidas do exterior se originariam de fontes diversas, porque conduzidas através de uma língua igualmente acessível a todos os povos. Uma língua internacional neutra por certo permitirá àqueles povos cujos idiomas não têm circulação internacional a divulgação de sua posição política, do seu pensamento filosófico, do seu progresso social e científico, diretamente, ao resto do mundo, sem ter de sujeitar-se ao processo seletivo da corrente de informação a que a tradução em uma língua nacional conduziria.
Uma língua internacional neutra, não-vinculada a interesses econômicos ou políticos, logo não-pertencente de modo particular a povo algum, aprendida como segunda língua por todos os povos, será a solução fácil do problema, pois ao achar-se alguém em presença de um interlocutor, falante de um idioma desconhecido, apelará imediatamente para o denominador comum, a língua internacional.
É fácil imaginar a facilidade que representa um mundo bilingüe: trabalhadores podendo prestar serviços em qualquer parte do mundo; estudantes fazendo cursos em países, cujas línguas nacionais não dominem e não tendo necessidade de aprendê-las previamente, nem de recorrer aos onerosos e, por vezes, ineficientes serviços de tradução.
O uso de uma língua neutra, isto é, não-pertencente a povo algum, sem vinculações particulares de qualquer natureza, aprendida como segunda língua por todos os povos, desde a escola básica, trará inequívocas vantagens nos relacionamentos internacionais.
Esse elemento neutro de comunicação mundial já existe. É o projeto saído do cérebro e do coração de um jovem idealista que, numa antevisão extraordinária de um mundo que não chegaria a ver, apresentou solução antecipada para esse crucial problema humano, ao publicá-lo em 1887. Embora não fosse um lingüista profissional, sua visão sociolingüística e universalista transcendia à dos especialistas. Sabia que lançava apenas um projeto, uma proposta para o nascimento de uma língua que representaria um passo na própria história da espécie humana.
Foi a comunidade mundial que adotou o projeto do jovem polonês que lhe deu o sopro de vida, alçando-o à condição de língua viva que tem hoje. Por isso o Esperanto apresenta-se para o desempenho desse papel, relevante sob todos os aspectos, porque dentre os idiomas criados para esse fim, que surgiram até agora, é aquele que se destaca pela facilidade de aprendizado, graças à simplicidade e regularidade que seu genial criador conseguiu imprimir-lhe.
Entretanto, essa simplicidade não implica pobreza de recursos de expressão, visto ter-lhe sido possível acompanhar, desde a sua publicação, em 1887, o progresso sem precedentes que se constata em todos os setores da atividade humana, dando conta do discurso científico, filosófico, sócio-político e religioso de todos os tempos, como atesta a extensa bibliografia existente. Sua regularidade, que o livra daqueles caminhos sinuosos que dificultam o aprendizado de um novo idioma, principalmente na idade adulta, não o desfigura como idioma humano, não o torna um código matemático, frio, monótono, artificial.
A esse respeito, consulte-se a vasta literatura, original e traduzida, em poesia e prosa, sobre os mais variados temas.
A prova mais concludente a respeito da adequação do Esperanto ao papel a que se propõe é dada pela sua sobrevivência e pelo progresso que, embora lento, sem apoio direto de nenhum governo, é sempre crescente em todo o mundo.
Dezenas de línguas surgiram antes dele; outras lhe foram contemporâneas no lançamento; várias outras, posteriores. Não obstante, nenhuma conseguiu ameaçar-lhe o progresso.
Tem hoje o Esperanto a oportunidade maior da sua história, pois o mundo necessita dele, exatamente pelas características que sempre o distinguiram de projetos ou de línguas concorrentes., por constituir-se numa demonstração viva de que complexidade lingüística não significa superioridade de desempenho, pois é simples, sem ser superficial; é eficiente sem ser complexo.
É chegado o momento do Esperanto, como chegou o momento das notas musicais, do sistema métrico, dos símbolos dos corpos simples, dos sinais internacionais de tráfego, das unidades de medição de vitaminas e proteínas, e de tantas outras mais, todas aceitas internacionalmente por gestos de comum acordo, de bom-senso, sem imposição alguma.
Assim, ao Homem, que adotou conscientemente a linguagem internacional das notas musicais, do Código Morse, dos sinais de tráfego, dos códigos de computação e de tantos e tantos sistemas e códigos usados em âmbito mundial, não lhe será impossível adotar a língua elaborada pelo gênio de Zamenhof como código de comunicação falada e escrita, o que constituirá mais do que uma vitória do Esperanto, uma demonstração de espírito prático, de bom-senso e, sobretudo, de justiça.
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quinta-feira, setembro 30
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