quarta-feira, julho 20

DAS SEPARAÇÕES

Drummond diz em um texto que se fosse Deus baixaria um decreto: Mãe não morre nunca. Se eu fosse Deus também faria uma lei – mesmo que para Deus essa temporalidade não seja nada, poetizar é preciso -, tal qual:

DAS SEPARAÇÕES

Dispõe sobre a separação etc.

Artigo Único, pois que Deus é perfeito, conciso, e nem um pouco afeito a ambigüidades: Fica vedado às pessoas que se queiram bem, qualquer forma de separação que seja superior ao que lhes é possível suportar antes de derramarem a terceira lágrima.

Redundância: Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogando-se todas as disposições em contrário.

TIPOS DE SEPARAÇÃO

Visto não ter possibilidade de escrever sobre separações – meu repertório acabou nos últimos 2 textos –, bebo da fonte de um dos meus maiores parceiros literários (cof cof cof), Vinícius de Moraes:

<< Separação entre Amigos >>

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…
(...)
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.(1)


<< Separação entre Amantes >>

Meus amigos, se durante meu recesso virem por acaso passar a minha amada
peçam silêncio geral.
Depois apontem para o infinito.
Ela deve ir como uma sonâmbula, envolta numa aura de tristeza, pois seus olhos só verão a minha ausência.(2)


Não poderia me furtar a outro exemplo:

(...) Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.
De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...(3)


<< Separação pela “morte” >>

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas.(4)


<< Separação da Pátria – O Exílio >>

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
(...)
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu... (...)(5)


E pra quem não sabe qual separação lhe espera, leia o Soneto da Separação...