Complete a frase acima... Vamos colocar alternativas:
“Penso, logo...”
a. canso
b. existo
c. entro em parafusos
d. sou
e. nenhuma das anteriores
Tudo bem. Não é tão livre assim a sua resposta. Quero que você complete a frase como a teria escrito o René Descartes.
Se você marcou a letra B você errou. Pois é, a letra B não é a certa. Pode até ser que seu professor do cursinho, aquela sua professora de filosofia do terceiro ano ou aquele tio culto que todo mundo tem tenha te ensinado: “Penso, logo existo”. Mas na verdade, não é bem assim.
O grande pensador partiu de uma premissa incontestável: penso. Daí concluiu: ergo sum.
Mas a coisa não é tão simples. O tradutor, como pondera Nilson Lage, para não cometer o que considerava uma heresia, não foi fiel ao conteúdo original. Como diz aquele adágio italiano, tradutore, traditore (tradutor, traidor). No latim era “Cogito ergo sum”; para o francês traduziu-se “Je pense, donc je suis”, para o inglês “I think, therefore I am”.
A última coisa, porém, que Descartes queria dizer com essa frase, em seu “Discurso do Método”, era que nós existíamos pois pensávamos. O candidato que, por chute ou destreza, marcou a letra “d” (sou), se deu melhor.
“Penso, logo sou”. Sou... pois esse verbo não pressupõe temporalidade, pelo contrário, é anacrônico, extemporâneo. Ao contrário de estou, ao contrário de existo. Ninguém, em sã consciência, poderia ligar o fato de pensarmos ao de existirmos. As plantas existem, as impressoras, as flores, os carros, o petróleo. Penso, logo sou. Entretanto, só a Deus era cabível a utilização do verbo Ser. Só Deus era. Mais ninguém. À época o tradutor preferiu não entrar em embate com a Santa Igreja e com aquilo que lhe fora ensinado, ou em verdade, tenha preferido não precisar reconstruir todo seu entendimento de mundo assentado.
Como diz o físico Dahoni, por vezes é mais fácil adaptar as evidências às nossas teorias do que modificar nossa maneira de ver o mundo.
Pela tradução incorreta, incoerente, infiel ao que o pensador havia desejado dizer, foi possível para Jacques Lacan fazer um alerta. Utilizando-se de um jogo de palavras ele teria dito, em diálogo com a frase “Penso, logo existo”: “Não! Penso onde não existo, logo existo onde não penso.”
A era do inconsciente ajuda a entender essa questão. Como nos é ensinado por Freud, a consciência é como a ponta do iceberg. Seríamos mais inconsciência do que consciência (mais inconsistência, pra aproveitar a parecida sonoridade). Penso onde não existo (na inconsciência, no que me é inacessível da maneira tradicional), logo existo onde não penso (existo, na verdade, na inconsciência. A ponta do iceberg não pode ser tomada pelo iceberg.).
Enfim, a última citação que lembro é de Immanuel Kant, o grande pensador e homem sistemático, que tem uma interessante assertiva acerca do pensamento, mais precisamente sobre a razão. Ele diz algo do gênero: se alguém tentasse provar a falência da razão, objetivasse desqualificar a razão como meio mais eficiente de elucubrar o mundo, não lograria êxito, pois que seria necessário, para tal, de utilizar-se da própria razão.
E aí: você existe porque pensa, pensa porque existe, pensa onde não existe, existe onde não pensa, é porque pensa ou é porque pensa e existe onde não pensa? Essas perguntas foram mais complexas que a inicial, concordo. Mas afinal, você é? Como sabe? Quem disse? Porque?
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domingo, setembro 4
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