[post de intervalo. O último é grande, como o próximo tá demorando, vai alguma coisa soh pra não deixar sem nada! ¬¬ - EM HOMENAGEM a Lu que estava me cobrando algo novo. Esse é só de brincadeira, a Lu merecia umas 20 mil vezes mais! :D ]
Isso que é sincretismo religioso...
- E aí, vai no cinema hoje?
- Olha... Se Deus quiser,
e os santos disserem amém,
e Kardec consentir,
e Buda não for contra,
se o Papa não criar caso,
se Manoel Jacintho Coelho concordar,
se Edir Macedo não chutar "o balde",
se Krishna for a favor,
e se Sai Baba não disser não...
hum... ainda não decidi.
PODCAST ENTRE ASPAS
segunda-feira, abril 17
sábado, abril 1
Crônica de uma infância
[ficcão cotidiana]
Eu sentei naquele passeio daquela rua afastada do centro da cidade, e olhando as crianças que passavam saindo do colégio lembrei da primeira vez em que fui sozinho para a aula. Tinha nove anos e ouvi minha mãe dizer que aquele dia eu ia desacompanhado pra escola. Peguei minha mochila me sentindo homem, como se tivesse tirado carteira, ou com a mesma sensação que mais tarde senti ao falarem comigo “senhor, dá licença” no ponto de ônibus. Com a mochila nas costas e a merendeira em uma das mãos, saí de casa andando de maneira nem um pouco costumeira. Não sei se marchava, não sei se fingia ser mais velho do que era, só sei que mais tarde me perguntaram se eu estava assado ou com vontade de ir ao banheiro. Chegando no colégio a “tia” (até os 20 anos chamei uma das professoras assim, acredite) perguntou onde estava minha mãe. Feliz eu disse que hoje eu tinha deixado ela ficar em casa sem mim. E ela nem tinha chorado! Coisa de criança. Entrei no colégio, orgulhoso, e fui direto para o pátio. Num daqueles dias eu havia visto um garoto mostrar o tênis novo dele de maneira, digamos, bem sutil... Primeiro ele deu uma tossidinha.
- E aí, tudo certo Pedro? - o garoto perguntou para ele após percebê-lo.
- Ei, meu pé nem doeu hoje... – eu lembrava do menino-do-tênis-novo.
- Porque, ele tava doendo?
- Era o sapato. - o outro menino ia entrar na estratégia por causa dessa frase!
- Bonito seu tênis! - pronto!
- Ah é, é novo!
Se ele conseguiu eu pensei que também conseguiria. Ramf, ramf, dei uma tossida no pátio.
- Que houve, Tales? Tá passando mal?
Já não tinha começado bem.
- Não, não... – tentei responder, até que me engasguei com saliva.
- Tales? Talessss?
O menino infeliz chamou a professora, que me levou de mão dada pra enfermaria. A tosse parou rápido, mas, diaxo!, por que ela precisava me levar de mão dada?
Lembrei do Pedro e sua estratégia.
- Ai, ai... meu pé nem doeu hoje – disse feliz.
- Que?
Olhei para os lados enquanto caía na real. Ahn? Tales!!? Pensava eu... o que tem a ver com seu pé!
- É que minha mãe anda muito rápido quando me traz!
Sinceramente, eu fiquei feliz com essa minha solução. Me achei inteligente na hora.
- Que bom que ela não andou rápido hoje!
- Não, não! Não é isso... – e dei uma risadinha. Ele ia perceber. E eu ficava pensando olhando pra ele como uma tentativa de conversar telepaticamente: eu vim sozinho, owww!
- Ah, então vc comprou um tênis novo?
Ahhh! Isso era bem comum comigo. Resolvi ser direto:
- Minha mãe não me trouxe hoje. – dei uma risadinha que todo mundo que passava por esse ritual tinha que dar, pelo menos assim eu imaginava.
- Ela tá bem? Sua empregada que te trouxe anda devagar, é isso?
- Não. Não. Não, né!
- Ei, Tales... – disse o Gustavo. - Você já foi no médico olhar isso?
- AHHHHHHHHH!
É, dei uma estressada. Naquele dia no futebol nem fui escalado, porque o Gustavo era o capitão do time. Depois que ele escolheu as duas equipes veio feliz pro meu lado e me deu um tapinha nas costas dizendo:
- Amigão, viu só? Te deixei de fora hoje pra você olhar isso do seu pé... Sei lá, não quero que se machuque. Issaê, amigão!
Nunca odiei tanto ouvir um “issaê, amigão”. Fiquei pensando que quando comprasse um tênis novo, pelo menos, saberia como fazer pra que os outros ficassem sabendo.
Aquele dia voltei pra casa sozinho, pensando que não era muito bom em manipular o pensamento das pessoas como havia visto o Pedro fazer. Tudo bem, as vezes era culpa do Gustavo, que não tinha ficado no mesmo nível superior de sutilezas argumentativas. Tá, naquela época não pensei com essas palavras bonitas, mas o fundo era o mesmo.
E sentado naquele passeio, olhando as crianças saindo do colégio gritando, mães felizes segurando os filhos pela mão, ouvindo o barulho daquelas mochilas com rodinhas no passeio de cimento, observando o tio da pipoca, a tia do churros, lembrei de mais uma coisa meio esquisita hoje em dia. Saindo de casa minha mãe me pegou pelo braço e me disse rapidamente antes de me beijar a testa: não aceite bala de estranho, e nem adesivos em forma de estrela, que podem conter drogas que te deixarão viciado (em adesivos?).
Saudade daquela época. Na quarta séria briguei de vez com o Gustavo, quando ele olhou pra mim no primeiro dia de aula e perguntou:
- Uê, sua mãe não veio te buscar ainda?
Eu sentei naquele passeio daquela rua afastada do centro da cidade, e olhando as crianças que passavam saindo do colégio lembrei da primeira vez em que fui sozinho para a aula. Tinha nove anos e ouvi minha mãe dizer que aquele dia eu ia desacompanhado pra escola. Peguei minha mochila me sentindo homem, como se tivesse tirado carteira, ou com a mesma sensação que mais tarde senti ao falarem comigo “senhor, dá licença” no ponto de ônibus. Com a mochila nas costas e a merendeira em uma das mãos, saí de casa andando de maneira nem um pouco costumeira. Não sei se marchava, não sei se fingia ser mais velho do que era, só sei que mais tarde me perguntaram se eu estava assado ou com vontade de ir ao banheiro. Chegando no colégio a “tia” (até os 20 anos chamei uma das professoras assim, acredite) perguntou onde estava minha mãe. Feliz eu disse que hoje eu tinha deixado ela ficar em casa sem mim. E ela nem tinha chorado! Coisa de criança. Entrei no colégio, orgulhoso, e fui direto para o pátio. Num daqueles dias eu havia visto um garoto mostrar o tênis novo dele de maneira, digamos, bem sutil... Primeiro ele deu uma tossidinha.
- E aí, tudo certo Pedro? - o garoto perguntou para ele após percebê-lo.
- Ei, meu pé nem doeu hoje... – eu lembrava do menino-do-tênis-novo.
- Porque, ele tava doendo?
- Era o sapato. - o outro menino ia entrar na estratégia por causa dessa frase!
- Bonito seu tênis! - pronto!
- Ah é, é novo!
Se ele conseguiu eu pensei que também conseguiria. Ramf, ramf, dei uma tossida no pátio.
- Que houve, Tales? Tá passando mal?
Já não tinha começado bem.
- Não, não... – tentei responder, até que me engasguei com saliva.
- Tales? Talessss?
O menino infeliz chamou a professora, que me levou de mão dada pra enfermaria. A tosse parou rápido, mas, diaxo!, por que ela precisava me levar de mão dada?
Lembrei do Pedro e sua estratégia.
- Ai, ai... meu pé nem doeu hoje – disse feliz.
- Que?
Olhei para os lados enquanto caía na real. Ahn? Tales!!? Pensava eu... o que tem a ver com seu pé!
- É que minha mãe anda muito rápido quando me traz!
Sinceramente, eu fiquei feliz com essa minha solução. Me achei inteligente na hora.
- Que bom que ela não andou rápido hoje!
- Não, não! Não é isso... – e dei uma risadinha. Ele ia perceber. E eu ficava pensando olhando pra ele como uma tentativa de conversar telepaticamente: eu vim sozinho, owww!
- Ah, então vc comprou um tênis novo?
Ahhh! Isso era bem comum comigo. Resolvi ser direto:
- Minha mãe não me trouxe hoje. – dei uma risadinha que todo mundo que passava por esse ritual tinha que dar, pelo menos assim eu imaginava.
- Ela tá bem? Sua empregada que te trouxe anda devagar, é isso?
- Não. Não. Não, né!
- Ei, Tales... – disse o Gustavo. - Você já foi no médico olhar isso?
- AHHHHHHHHH!
É, dei uma estressada. Naquele dia no futebol nem fui escalado, porque o Gustavo era o capitão do time. Depois que ele escolheu as duas equipes veio feliz pro meu lado e me deu um tapinha nas costas dizendo:
- Amigão, viu só? Te deixei de fora hoje pra você olhar isso do seu pé... Sei lá, não quero que se machuque. Issaê, amigão!
Nunca odiei tanto ouvir um “issaê, amigão”. Fiquei pensando que quando comprasse um tênis novo, pelo menos, saberia como fazer pra que os outros ficassem sabendo.
Aquele dia voltei pra casa sozinho, pensando que não era muito bom em manipular o pensamento das pessoas como havia visto o Pedro fazer. Tudo bem, as vezes era culpa do Gustavo, que não tinha ficado no mesmo nível superior de sutilezas argumentativas. Tá, naquela época não pensei com essas palavras bonitas, mas o fundo era o mesmo.
E sentado naquele passeio, olhando as crianças saindo do colégio gritando, mães felizes segurando os filhos pela mão, ouvindo o barulho daquelas mochilas com rodinhas no passeio de cimento, observando o tio da pipoca, a tia do churros, lembrei de mais uma coisa meio esquisita hoje em dia. Saindo de casa minha mãe me pegou pelo braço e me disse rapidamente antes de me beijar a testa: não aceite bala de estranho, e nem adesivos em forma de estrela, que podem conter drogas que te deixarão viciado (em adesivos?).
Saudade daquela época. Na quarta séria briguei de vez com o Gustavo, quando ele olhou pra mim no primeiro dia de aula e perguntou:
- Uê, sua mãe não veio te buscar ainda?
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