Temos certa facilidade em lembrar de algumas situações (inusitadas) com mais facilidade do que nos lembramos de outras. Quando alguém nos conta algo que nos deixa triste, ou nos marca, não só lembramos a informação, como, normalmente, lembramos todo o contexto da situação.
Lembro, por exemplo, como fiquei sabendo da morte de todas as pessoas que amava que já desencarnaram. Lembro quando estava no colégio, e todos foram dispensados. Estranho. Um colégio de 2 mil alunos, todos liberados! Fui pra casa da minha vó, não sei porque, me levaram pra lá. Quando cheguei, no primeiro andar, me chamaram e disseram que meu melhor amigo tinha morrido. Meningite. Lembro direitinho, que fiquei chorando sentado em um sofá. Lembro do sofá. Lembro de como chorei. Lembro exatamente. E eu tinha quantos anos? Estava na terceira série, acho.
Lembro quando minha mãe me disse que minha tia Wanda tinha morrido, também. Nem tinha muito contato com ela. Não sei se foi antes do Bernardo, ou mesmo depois. Só sei que ela me chamou no quarto dela e falou. Precisamos conversar. Aí contou que ela tinha desencarnado.
Lembro quando empurrei meu segundo melhor amigo, na frente de vários colegas. Empurrei ele porque os outros ficaram “atiçando”. Depois disso, corri pra casa, entrei no banheiro e chorei. Chorei por ter empurrado meu amigo. Aquilo me machucou muito. Nunca havia machucado ninguém, e empurrei o Pablo. Lembro cada detalhe daqueles momentos.
Lembro quando cheguei em casa e vi o atentado de 11 de Setembro na televisão. Aquelas pessoas pulando. Lembro, também, quando vi, no meu quarto, de madrugada, os ecos de uma guerra sangrenta, lá no oriente médio. E chorei. Chorei ao ver as bombas caindo de madrugada nas casas, enquanto me via de madrugada, deitado em uma cama quente e ouvindo os passarinhos do fim de madrugada.
Lembro quando peguei uns papéis na minha gaveta, nos quais o Bernardo havia escrito o nome da garota que ele – naquela idade, de forma infantil – gostava. Havia prometido nunca contar para ninguém. Foi a primeira vez que guardei um segredo. Peguei o papel e queimei, para que ele recebesse pela fumaça. Mais de 10 anos depois, fiquei sabendo que o segredo nunca havia sido segredo. Mas eu fiz a minha parte.
Lembro como fiquei sabendo que minha vó morreu. Estava no computador, num bate papo. Conversava com alguém de longe. Sem ânimo. Eu sabia que ela ia morrer, naquele dia. Não sei porque, mas sabia. Era dia 26 de dezembro. O dia após o natal. Quando meu pai chegou na porta, quase disse: já sei, pai. Mas não falei nada. Aí ele disse: sua vó.
Lembro quando meu vô desencarnou. Ah, não precisa contar mais. Até porque, essas lembranças não inspiram tristeza em mim. Depois de ter virado espírita, na verdade, enxergo isso com uma naturalidade as vezes assustadora. Uma pequena viagem. Apenas isso. Só queria refletir um pouco sobre a memória. Essa capacidade de lembrar o contexto, o momento, os instantes, os cheiros, as cores, as sensações, está, parece-me, vinculado com o que estamos vivendo naquele momento. A gente lembra de cada coisa. As vezes é bom fazer esse exercício. Lembro da minha cidade natal. Do meu colégio, do primeiro colégio. Lembro de uma das minhas salas de aula. Bem antiga. E tento lembrar de tudo que aquele ponto me inspira. Vem cada lembrança! Aí basta fazer um exercício para direcionar para as boas lembranças, ou então, conseguir levar todas as lembranças com a mesma naturalidade!
Texto bem diferente. Bem “diário”. Tipo de texto incomum nesse blog. Ah, mas isso aqui não pode ficar vazio para sempre, ou então, que tipo de lembrança vocês vão guardar disso aqui? Haja memória para lembrar o endereço dele depois de tanto tempo sem usar! :D
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sexta-feira, setembro 1
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