Tom Zé é um dos melhores exemplos de como o Brasil é pródigo em esquecer talentos, para logo em seguida reverenciá-los quando são reconhecidos em outras terras.
Não tenho conhecimentos musicais de forma alguma superiores ao da média, então não analiso aqui qualquer questão de teoria musical ou história da música. Há outros mais competentes nisso. Quero chamar atenção para que alguns amigos meus talvez passem a conhecer esse que é um dos maiores gênios da música brasileira.
O gênio que Caetano ou o ministro Gilberto Gil, por exemplo, não são. Identificados em um primeiro momento com a tropicália, que foi o movimento posterior à Bossa Nova, que fora posterior ao samba-canção, Gil, Caetano e Tom Zé fizeram bastante sucesso. Caetano que é excelente letrista e melodista, popularizou-se e cristalizou-se. Descobrindo o veio do sucesso, não mais remou em outros rios. Gil não foi diferente. Um gênio, do contrário, nunca se contém nos moldes que ele cria.
Tom Zé, o gênio de Irará – cidade que carrega consigo em cada canto do planeta quando vai fazer um show -, é artista. Mas artista em um sentido exigente proposto pelo único poeta que viveu como poeta, Vinícius de Moraes:
Picasso é como o câncer às avessas. Sua arte múltipla e prolífica representa uma tremenda afirmação de vida, pois o grande andaluz reformula-se constantemente, até quando varia sobre o mesmo tema. O quadro é para ele como um abismo onde se lança de cabeça, e que uma vez possuído, repele-o fora, como uma mulher violentada. Porque Picasso é dos poucos artistas de qualquer época a quem o abismo teme. O abismo teme esse louco saltimbanco que se atira no vácuo da tela sem saber se vai voltar – e volta sempre. De quantos mais, no nosso século, se pode dizer o mesmo?
Tom Zé se entende como processo e sua arte como uma consequência em transformação. Ele não aceita fazer melodia e letra, simplesmente, como tantos fazem bem feito. Se já o fazem, e fazem-no melhor (segundo ele próprio), por que ele seria aquele que faria o mesmo e de qualidade inferior. Tom Zé joga fora os remos, pula do barco e experimenta.
O inventor de Irará cria sons, produz novas formas, experimenta enceradeira, esmeril, jornal, tira o som da vida e faz música do improvável. Ouvir Estudando o Samba, “biscoito” que o tirou das sombras que o Brasil o colocou é uma tarefa absolutamente arrastadora. As palavras comovem, Tom Zé arrasta. É um disco que facilmente entra nos melhores discos já produzidos no país e que ficara guardado nas prateleiras empoeiradas de lojas no Brasil até David Byrne (ex Talking Heads), já à época importante produtor musical, descobrir o disco jogado em meio a tantos outros. Ele teve sua atenção chamada por arames que fazem parte da arte da capa do disco.
Tom Zé tem uma formação musical sólida – e nesse sentido teórico mesmo! Teve como mestres Hans Joachin Koellreutter e Ernst Widmer na UFBA. Foi eleito globalmente um dos melhores músicos da década de 90 pela revista Rolling Stones.
Conhecer Tom Zé exige ouvir sua música. Eu poderia falar horas de trechos e músicas que me deixam sorrindo timidamente. Vinícius dizia que "A arte não ama os covardes. Eu digo, então: a arte ama Tom Zé.
DESTAQUES:
Quando eu vi
Que o largo dos aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição,
Eu fui morar na estação da luz,
Porque estava tudo escuro
Dentro do meu coração.
Na vida quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar
O sol que sobe na cama
E acende o lençol