terça-feira, agosto 31

Vinícius e o Pássaro

Quem tem mais sempre tripudia de quem tem menos. A voz do vento titubeante, vindo e deixando de vir, as folhas secas se partindo ao som de passos. Árvores cujos galhos tendiam ao sabor do vento. E eu, sentado, olhando para o céu azul, sem começo nem fim.
Intrometido, um pássaro cruzou o céu, de lá para cá, sem nem dar bola pra mim, que embaixo dele estava, parado, inerte. Pousou meu novo companheiro num dos galhos da árvore vacilante. Olhou para baixo, fitando-me com desprezo. Provavelmente era inconcebível para ele a razão pela qual eu não abria asas e ia acompanhar seu passeio. Algo tão banal. Simplesmente voar, cortar as planícies, ir ao silêncio, onde este sinceramente existe. Se ele pudesse falar - ou será que fala e eu não entendo? - talvez dissesse, revoltado: levanta! Abra tuas asas, sê livre! Ah... E se eu pudesse fazer, não pensaria sequer uma vez, seguiria meu novo amigo, simplesmente sentindo a liberdade.
Mas, como quem tem mais sempre conta vantagem, ele não me esperou nem um minuto, muito menos foi solidário para com minha limitação ou veio fazer-me companhia no chão-firme; o pássaro tremeu o corpo, abriu as asas, balançou a cabeça reprovando-me, e saiu como um foguete pelo sem fim...

Vinícius Diniz
30/08/04

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