quinta-feira, dezembro 30

Elucubrações...

- A minha Verdade... -

Como é engraçado pensar. Quando eu era criança, pré-adolescente, tinha a mania de achar um absurdo que os outros não comungassem da minha verdade. Como é que fulano não gosta de piano? Como ele não pode gostar de bossa nova? Como é que pode fazer sentido pra alguém não respeitar os animais? Queria que todos pensassem como eu, e achava que isso era questão de tempo. E foi. Percebi que a minha verdade era isso e nada além. Entendi que o sentido é uma construção também pessoal, e que, por isso, aquilo que era a base da minha vida, por outro podia ser relegado ao décimo plano. E essa mudança foi muito saudável. Mas nunca fui prosélito, nunca fui insistente. Apenas demorei (nem tanto) a entender que a verdade não tinha simulacros, era, antes, múltipla.

- O Código Da Vinci / Dan Brown -

Li 350 páginas do livro e posso fazer (não contem o fim!) algumas ponderações...

O autor é extremamente competente, não há como duvidar. Além disso, escolhou um tema polêmico (religião, arte, simbologia), embora o tenha utilizado de forma negativa. Ele mescla o absolutamente ficcional (personagens, romances), as teorias discutíveis e discutidas (Santo Graal, Jesus e Madalena)e o comprovadamente factual (existência de Priorados, da Opus Dei) de forma ardilosa. O autor associa nas páginas as diversas teorias aos fatos, e ainda inclui o ficcional entre estes, de modo que em determinado momento do livro não se sabe mais o que é fato e o que é apenas uma teoria defendida pelo autor. Extremamente prejudicial ao leitor mediano, já que desarma-o ao embaralhar essas questões, não é uma forma "a-intencional" de escrita. Dan Brown acaba conseguindo com que muitos terminem o livro concordando inconscientemente com ele nas questões mais polêmicas dos últimos séculos. Dizer que é um livro perigoso é exagero, mas não é um livro comum. Leia-o vendo nele um emaranhado de teorias da conspiração, que podem ou não ser verdadeiras, mas sobre as quais muito se discutiu e quase nada se concluiu. A leitura, sim, vale a pena. É fluene e intrigante, não é a toa que sugiram meia dúzia de livros tentando explicar, corroborar ou contradizer O Código, e que o livro do Dan Brown tenha virado best seller mundial, com mais de 15 milhões de livros vendidos (podendo chegar a 20 mi).

- Ano Novo -

Não tem como. Ano vai, ano vem, e as promessas se repetem. O mundo foi muito bem feito, e é meu dever de cidadão cônscio admitir. A maior sabedoria do mundo é a possibilidade ampla e indiscutível do recomeço. E embora não vejamos, o mundo está perpassado de recomeços. São mini e macro ciclos, que se unem. A cada segundo, um novo segundo. A cada 60 destes um minuto. A cada outros 60 minutos uma hora. E é aí que começa. As horas significam a mudança menos intensa. "Preciso passar umas horas sozinho." Com o passar das horas melhoramos. O dia é outro esperto ciclo. Quando estamos com dor de cabeça, 8 da noite, a melhor coisa a fazer é dormir. "Acordarei melhor", dizemos. É o ciclo. Imagine que suplício seria se não houvesse o amanhã, assim, configurado, e a vida fosse um imenso dia (ou uma interminável noite), que não recomeçasse a cada amanhecer; seria triste: uma eterna escuridão ou uma eterna luz, sem a alteração dia/noite, claro/escuro, yin e yang. E depois vem a semana, a Senhora das Dietas, das melhorias de humor, das pequenas atitudes. "Segunda começo a dieta", sem falta. Juntando 4 semanas, que são formadas por 7 dias, que são formados por 24 horas, e etc, temos o mês. Define nossas programações e nossas matrículas em cursos de inglês e além disso, pode ser a segunda alternativa àqueles que estão menos animados com as dietas. "Mês que vem prometo entar na dieta". Depois temos o ano, praticamente o único reduto daqueles que perderam todos os recomeços contidos nele: 12 meses, praticamente 48 semanas, 365 dias, 8760 horas, 525.600 minutos... Acho válido, sim, promessas de ano novo, mas aproveite as promessas que fizer pra analisar: normalmente, esses são seus maiores desafios, afinal, você não os venceu durante o ano todo. Mas a regra permite que sejamos reincidentes no ano novo, vale prometer o já prometido, mas faça de tudo pra que essa seja a última vez, e que, ano que vem, possa prometer outras coisas mais. Mas prometa de coração.


sexta-feira, dezembro 24

Caro vizinho...

Texto entregue para a disciplina de Redação em Língua Portuguesa II, da Faculdade de Comunicação (www.facom.ufjf) da UFJF (www.ufjf.br). A proposta era a produção de uma carta entre vizinhos, ou reclamando, ou pedindo desculpas. Adivinhem qual escolhi?
Feliz Natal! Ho-ho-ho !


Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 2004
Caro vizinho,

Tomei a liberdade de colocar esta carta dentro do seu jornal. Quem sabe o senhor chegue na parte de Esportes, logo ao lado da notícia sobre o Vasco e encontre esta breve missiva. Aliás, essa é uma das coisas que sei sobre o senhor. Sua paixão por esse time é, talvez, conhecida do outro lado do atlântico, pela altura que o senhor executa o hino, religiosamente às 7 horas da manhã. Por falar em jornal, havia ali uma notícia sobre barulho na qual eu fiz questão de passar um marca texto amarelo. Espero que o senhor não se incomode.

Se, pois, esse pedaço de papel chegar até suas mãos, e mais, se o senhor se dignar a lê-lo, por favor, chegue ao fim. Nesse espírito natalino que nos ronda – pelo menos deveria -, apelo ao senhor mais uma vez: não desça, vestido de bom velhinho, de rapel pela frente do prédio, como no último ano. Isso me custou algumas dezenas de reais na troca do vidro da sala, e mais de hora varrendo os cacos. Que o papai Noel desça de elevador, como todos os outros mortais. Ele não está mais na flor da idade.

Sei que é o seu trabalho, e que aquilo era um treino para outra apresentação, mas os presentes podem chegar pala lareira – ou pela porta, já que não estamos na Europa. Ah, e não cisme de me fazer feliz como no natal de 96, quando trouxe bolas de soprar cheias de confete aqui pra porta de casa, e entoou “Noite Feliz” com alguns amigos. Não vai me convencer novamente a ir cear em seu apartamento. A comida estava péssima e seu cachorro é insuportável.

Amigos, amigos; vizinhos à parte. Já diz o velho ditado. E pra piorar, o xixi do seu cãozinho – ao qual, não sei a causa, o senhor deu o meu nome – manchou minha (ex-)blusa preferida. Por que motivo o senhor foi insistir: “pega ele no colo, pega, ele não faz nada”. Nada além de xixi em mim.

Se parasse por aí ainda não seria tão ruim. Mas além da comida (péssima), do cachorro (fedorento), da música “Noite Feliz” (desafinada e brega, convenhamos), o senhor ainda foi arrumar filhos. O mais novo ficava me dando socos, e o de dez anos fazendo caretas.

Mas é com extremo carinho que peço a vocês um pouquinho de paz no Natal. Vocês sabem que não tenho nada contra essa família tão linda.

E é nesse clima festivo que termino a carta. Me perdoe se a letra é tremida, mas foi a idade. A genética me fez envelhecer muito rápido. Quem diria que tenho somente quarenta anos!

Do vizinho de baixo,
Boas festas,
Severino

quarta-feira, dezembro 15

Outro Sol

Chegou a fase de comprar livros. Nada melhor do que isto, convenhamos. Roupas, sapatos, video-games... Tudo é moda; um livro bem escrito é eterno. E eu rodei todos os sebos do centro de Juiz de Fora, que ficam, aliás, todos numa mesma galeria em forma de ferradura. Quem sabe 6, 7 sebos, e em nenhum deles achei um livro que me interessasse. Achar livro em sebo é como pegar uma batéia, sentar à beira do rio, e de repente ver, lah no fundo, brilhar um pouquinho de ouro. É uma sensação de achar dinheiro na rua, com o benefício de não criar consciência pesada.

Fui pra faculdade e comprei 2 revistas Lumina, da pós em Jornalismo da UFJF. Já tinha a 1,2,3,4 e 9. Comprei a 6/7 (siameses) e a 8. A 5 se esgotou. E comprei outro livro, um livro de poemas. O título é por demais sugestivo, e eu já não aguentava mais de curiosidade de ler os poemas. O autor, que quase formou em filosofia, é de uma intelectualidade (não forçada, diga-se) surpreendente. O livro, chamado OUTRO SOL, reúne os poemas de Julio Polidoro que foram escritos de 1979 até 2003. Meu livro ainda vem com dedicatória (estou chique mesmo, galera!).

Não li o livro todo, obviamente. Afinal comprei ontem, e os poemas são difíceis de captar. Recomendo o livro, e aí seguem dois poemas que gostei muito:

"meu coração um ancião habita
e aponta longe o corpo que vivi

o corpo que vivi perante a porta
perante a porta que jamais abri

seria após o Éden, seus jardins?
depois viria o que não tenho em mim?
ou portas e mais portas para abrir?
sem chaves, fechaduras, sem o si?

não há que erguer o véu, buscar resposta
nem há o corpo longe que perdi -
mas onde a porta por detrás da porta?"

(Julio Polidoro - Outro Sol, P. 109, 2004)

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"O círculo"

círculos são retas no desvio
curva para dentro
autofagia

giro do pião
a seta
apontando-se

(Julio Polidoro - Outro Sol, P. 197, 2004)

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Nem ouso explicar os poemas. Tenho pra mim que certas coisas quando explicadas perdem a magia (tente explicar uma piada, um poema, uma mágica. Na mesma hora cai por terra o encantamento). E há outro motivo: pra explicar teria que ter entendido, e ademais, teria que crer que só há uma explicação. E nisso eu não acredito. Não há verdades em análises de sentimento.

Vinícius Diniz
(comprem o livro!)