sexta-feira, abril 1

“Mas onde a porta por detrás da porta?*”

Não vale a leitura pra quem não se interessar em Lingüística. O texto fala sobre Ferdinand de Saussure e suas quatro dicotomias (Sintagma/Paradigma, Significante/Significado, Língua/Fala e Diacronia/Sincronia); foi preparado para a matéria Redação em Língua Portuguesa III, baseado no livro "Introdução à Lingüística, VOL I", do FIORIN. O capítulo em questão é do Pietroforte. Quem não for ler [o que será MAIS que normal] deixa um recado! :)
Té mais!
Vinicius


<< Faculdade de Comunicação Social - UFJF >>

Resenha "A língua como objeto da Lingüística"
Redação em Língua Portuguesa III
Profa. Dina Amara

---xXx---

“Mas onde a porta por detrás da porta?*”

persigo, da fala, a plena expressão
da sala nunca aberta, o corredor
que nos conduza ao Verbo sem autor
e que traduza as coisas do porão.

mas como seduzir a sedução
e como, sendo ovelha, ser pastor,
se a fala, como falso condutor,
tem muitas e nenhuma direção?

Júlio Polidoro*, Outro Sol


O suíço Ferdinand de Saussure, se não pode ser considerado o iniciador da lingüística - afinal, o estudo das línguas é fato remoto, tem crédito suficiente para ser encarado como o seu sistematizador. Com a obra Curso de lingüística geral estabeleceu-se as bases para que o estudo das línguas fosse alçado à academia com o título de ciência.

Na obra, a genialidade de Saussure - que havia se dedicado ao estudo da física e da química, mas felizmente se rendera ao estudo da lingüística - transparece intensa, até mesmo por ser uma obra póstuma, publicada através de anotações de seus alunos em sala de aula. Saussure estabelece a "análise estruturalista" e quatro pares de conceitos dos quais a lingüística atualmente não prescindiria para seus estudos.

Esses quatro pares de conceitos são consensualmente chamados dicotomias, por serem definidos um em relação ao outro, e por não serem compreendidos de maneira fiel se estudados isoladamente. Daí temos sincronia e diacronia, língua e fala, significante e significado, paradigma e sintagma.

Após o lingüista suíço, diversos outros repensaram, ampliaram e refutaram suas idéias - como é indispensável a toda ciência amadurecida. Schaff (“Introdução à Semântica”) apresenta uma classificação ampliada dos signos; em “Prolegômeros a uma teoria da linguagem”, Hjelmslev propõe sua própria teoria dos signos e em "Ensaios Lingüísticos" ele repensa alguns conceitos saussureanos; André Martinet propõe a dupla articulação da linguagem, o que propicia maior compreensão de dois pontos: a priori das trocas paradigmáticas de unidades menores da língua (morfemas) e sintagmáticas da ordem das palavras e posteriormente da articulação de unidades desprovidas de sentido, tais como em nada, onde o fonema pode ser trocado dando origem a fada, cada e dada. E por sua vez também poderia articular-se a palavra nada em naja, napa, nata. Essa possibilidade de dupla articulação proporciona imensa economia lingüística, já que, partindo de sons finitos, chega-se a construções infinitas. Outro autor de grande importância na ampliação e na realocação de alguns conceitos de Saussure é Eugenio Coseriu. Ele propõe uma redefinição na dicotomia língua/fala, com a interpolação do conceito de norma. Segundo Coseriu, mais apropriado seria o uso da tríade língua X norma X fala, sendo que o conceito saussureano de língua sofreria algumas modificações. Também é do lingüista romeno a conceituação de quatro variantes lingüísticas: as diatópicas, as diástricas, as diafásicas e as diacrônicas.

A primeira das dicotomias saussureanas é a Sincronia versus Diacronia. Para entendê-la, nada melhor que remontar a origem dessas palavras: ambos os termos são gregos, sendo sincronia construído de syn "juntamente" e chrónos "tempo", significando "ao mesmo tempo", enquanto em diacronia parte-se de dia "através" e chrónos "tempo", significando "através do tempo". A lingüística diacrônica estudaria, pois, a língua e suas variações histórico-temporais, enquanto a lingüística sincrônica estuda a língua em um certo momento, sem importar sua evolução temporal. Não importa para a sincronia, por exemplo, que "caligrafia" tenha significado, em um certo tempo, "escrita bela", pois que, ao contrário da diacronia, aquela se preocupa com a língua isolada do seu processo de mudanças históricas.

Os conceitos de língua e fala são a segunda dicotomia do lingüista suíço. Para Saussure, a oposição desses dois conceitos se deve ao fato de a língua ser uma construção coletiva, enquanto a fala é uma propriedade individual. A primeira é definida como sistemática, enquanto a segunda como assistemática. Aí reside um fato interessante: a língua sendo um sistema, abre-se toda uma miríade de possibilidades analíticas, visto que sistema pressupõe inter-relação absoluta entre tudo na língua, justamente por um ponto se definir apenas pela existência dos outros. A importância desse conceito é o fato de que Saussure, através dele, estabelece o objeto de estudo da lingüística, ao afirmar que esta deve se preocupar apenas com a língua. Através dessa dicotomia chega-se à próxima, que, apesar de simples a primeira vista, possibilita novos entendimentos sobre muitos fatos. O primeiro deles é sobre a própria língua, que antes sendo vista como um catálogo de nomenclaturas, passa a ter uma relação que foge a essa entre "palavras" e "coisas", partindo para uma entre "imagens acústicas" e "conceitos". A dicotomia Significado versus Significante redefine a língua e a emancipa. Significante e significado, juntos, formam um signo, cujo estudo denominou-se "semiologia".

A quarta dicotomia levou o nome de Sintagma versus Paradigma e é facilmente entendida com alguns exemplos. Toda frase, segundo essa dicotomia - e não apenas frases, mas também palavras e até signos extra-lingüísticos (BARTHES, R.) -, possui dois eixos: um de seleção e outro de combinação. Na frase "Eu comprei um carro novo", há possibilidades combinatórias claras, tais como "Um carro novo eu comprei" (mudança de ordem das palavras) ou outras, como ao acrescentarmos novos termos à oração. Também há quase inumeráveis possibilidades seletivas, tais como: "eu / ele / tu / João / Dina - comprou / vendeu / roubou / explodiu - um / dois / três / muitos - carros / foguetes / caminhões - novos / velhos / antigos / raros". O eixo de seleção proposto pela relação paradigmática, corresponde às palavras que podem ocupar determinado ponto em uma sentença.

As contribuições de Ferdinand de Saussure são vastíssimas, e a lingüística não as tem obscurecido. Pelo contrário: tem evoluído pari passu com o passar dos anos, talvez por uma necessidade inata do ser humano. Afinal, conforme bem definiu Confúcio nos “Analetos”, sem conhecer a linguagem, não há como conhecer o homem.

10 comentários:

Anônimo disse...

Exelente texto ! Obrigada.

Anônimo disse...

=)
sorrisão da menina q entendeu o conteúdo da prova de amanhã graças a seu post moço!!!
^^
é incrível como linguística é tão interessante quando a gente começa a entendê-la...
minha (OTIMA ¬¬")professora em 20 aulas não me fez entender esse conteúdo completamente
como eu entendi agora!!!
de parabéns!!!

bjus...

Anônimo disse...

Putz, eu sei que já faz um tempão que você escreveu isso e tal, mas acho q o elogio é válido e o trabalho deve ser valorizado. Amanhã eu tenho prova de Teorias Linguisticas e pesquisando no google achei o teu texto. Adorei! Você soube muito bem como resumir em poucas linhas várias teorias, citar vários autores importantes e apresentar suas principais heranças para os estudos linguisticos.
Parabéns, e Obrigada! :-D

Jandira: Ensinando e Aprendendo com as tic´s disse...

Cara, valeu mesmo... Tenho um seletivo e tenho q ler um monte de coisas... Aqui ficou claro e pequeno... Ótimo...valeu

Anônimo disse...

E o que eu não entendi lendo e relendo o livro laranja, em cinco minutos ficou claro.
Obrigada e parabéns. Minha prova amanhã vai ter uma dedicatória pra você. :p

Anônimo disse...

Olá!!!
Este texto resumiu de uma maneira super simples as dicotomias de Saussure!!! Tenho um seminário sobre Semântica Estrutural em que terei de apresentar quatro das dicotomias saussureanas!!! Me ajudou muito!!! Obrigada!!!

hta disse...

Muito Legal, mesom vou apresentar hoje um trabalho e me ajudou bastante
Um grande Abraço!!!

Valéria Barbosa Valéria Barbosa da Silva disse...

Cai aqui estudando a segunda Aula de Morfologia da Estácio. Cai e me levantei. Estou tendo muita dificuldades para entender o conteúdo, talvez por já ter mais de seis décadas de "achar que a língua está em mim como estou nela. Sim estamos juntas, mas a naturalidade com a fala, e a audição pela vida é a grande barreira que preciso enfrentar.
Lentamente aprendo por apenas querer aprender, já que confinado o corpo é preciso libertar o conhecimento, mas é preciso além das horas destinadas ao estudo, desligar a atenção do contexto e mergulhar no conteúdo. Já consigo reconhecer algumas palavras e seus sentidos, agora o que preciso e deixar de sentir e mastigá-las na pratica.
Gratidão pelo ensinamento.

Valéria Barbosa disse...

Cai aqui estudando a segunda Aula de Morfologia da Estácio. Cai e me levantei. Estou tendo muita dificuldade para entender o conteúdo, talvez por já ter mais de seis décadas de "achar" que a língua está em mim como estou nela. Sim estamos juntas, mas a naturalidade com a fala, e a audição por toda uma vida é a grande barreira que preciso enfrentar.
Lentamente aprendo por apenas querer aprender, já que confinado o corpo é preciso libertar para reconhecer o conhecimento, porém necessito ir além das horas destinadas ao estudo; desligar a atenção do contexto e mergulhar no conteúdo. Já consigo reconhecer algumas palavras e seus sentidos, agora é deixar de sentir e mastigá-las na pratica, mas apreende-las com os seus significados e significantes.
Gratidão pelo ensinamento.

30 de setembro de 2020 17:42

Glauciane guimaraes disse...

Parabéns! Consegui desembaralhar a minha mente com essa dicotomia de Saussure.