Interessante pensar que a vida não é uma só. O mundo não é um só.
Excetuando-se as concepções reflexivistas e todas mais que renegam a existência de uma realidade, podemos fazer alguns exercícios criativos.
Cada um de nós é uma lente, que distorce a realidade. Não há ninguém que veja a realidade, pois ela é construída pelo próprio exercício de enxergar o mundo. Criamos a cada momento. Exemplos:
E se o juiz de um jogo de futebol apitasse, mostrasse o cartão vermelho e mesmo ninguém fizesse nada? De repente, o jogador no meio do campo pega a bola com as mãos, sai correndo e entra no gol do adversário. Depois disso, todos começam a tocar com as mãos na bola, o juiz apita, desesperado. Ninguém reclama, ninguém estranha.
O que faz o juiz? Tenta manter uma ordem que é, sobretudo, fruto de um consenso (nem sempre consciente).
Se, de repente, os guardas não obedecessem mais aos juizes e aos mandados, e se, durante uma guerra, todos abaixassem as armas e ficassem jogando baralho. Tudo é fruto de uma ordem consensual (inconsciente ou não, repito), sobre a qual nem é muito interessante fazer muitas conjecturas.
Tudo bem, o Estado de Natureza (como seriam os homens antes da existência de um Estado) pode existir de várias formas: seja a guerra de todos contra todos de Hobbes, seja o bom selvagem de Rousseau. A questão é que construímos a sociedade da forma que queremos. As línguas que falamos foram construídas coletivamente, ao longo dos anos. Nada é porque é. Tudo poderia ser diferente (não digo que deva ser, apenas “poderia” ser). Quem disse que a única lógica existente é a do trabalho/remuneração, quem disse que a única lógica é a da propriedade privada? Quem disse que a única lógica lingüística (e já se prova que não é) é a de falar sujeito/verbo/predicado, ou que deva ter nas línguas as construções que conhecemos?
Achamos as coisas normais, como se existisse algo essencialmente normal. Isso só pode ser considerado para nós: isso é normal para mim, é comum para mim. É normal comer língua de boi, orelha de porco, no feijão? É normal comer formiga dentro de bombom? Porque essa cara? É normal comer camarão, que tem aquelas patinhas e fica nadando na água salgada, e tem casca de quitina (quitina mesmo?), mas não é normal comer uma formiguinha no bombom? Construção social e ambiente têm um papel importante em nossa vida. Não é a toa que os antropólogos dizem que o pesquisador deve estranhar o próximo e aproximar o distante.
Acontece que Rousseau disse muito bem: o primeiro que cercou um pedaço de terra e disse “é meu”, e achou pessoas suficientemente ingênuas para acreditar, fundou a propriedade privada. Antes disso a terra era coletiva, como o é para os índios.
Quantas concepções do mundo poderiam haver? Cada pessoa é um mundo. Seis bilhões de mundos. A estrutura, a sociedade, Durkheim diria, não é apenas a soma das unidades. Quando 6 bilhões de pessoas se juntam, não é simplesmente um mundo de 6 bilhões de pessoas. Quando essas pessoas se juntam, formam algo muito maior e mais intenso que a soma dessas unidades. Seis bilhões de concepções, seis bilhões de mundos e suas interações. É a vida em movimento. Agora, enquanto você lê esta linha, a vida acontece. Pessoas dormem, acordam, choram, morrem, nascem. Coçam o polegar do pé direito, trocam o grafite da lapiseira, digitam em uma máquina de escrever, consolam, gritam, gritam de amor, de dor. A vida acontece simultaneamente em cada filigrana.
Não é a toa que eu, enquanto criança, desesperado e esmagado por essa profusão de acontecimentos, cheguei a pensar em duas teorias: Teoria da Simultaneidade e Teoria do Egoísmo Natural. A segunda dizia que as pessoas eram egoístas naturalmente pelo fato de saberem, inconscientemente, que todo o mundo trabalha para que ela viva. Que tudo está escorado por pessoas desconhecidas, para que ela possa ter suas necessidades supridas. A primeira dizia que era impossível que tudo acontecesse ao mesmo tempo. Que era impossível que milhares, milhões, milhares de milhões de pessoas vivessem simultaneamente. Como isso me era inconcebível, bebi do nome de uma teoria quântica em inglês – só do nome – pra criar a teoria: as coisas só acontecem enquanto vemos. Não existe uma china, até que eu queira ir para lá. Não existe uma mulher de 34 anos colhendo o mineral que fará o grafite da minha lapiseira, até que eu precise disso. Filosoficamente poderíamos até extrapolar e arranjar uma lógica para minhas argumentações, mas quando escrevi a teoria quis dizer que as coisas não existiam “fisicamente”. Não existiria uma China física, não existiria Vênus, até que eu olhasse em sua direção. Fisicamente, não filosoficamente! O nome da teoria quântica era “Is the moon there when nobody looks?”. Está a lua lá enquanto ninguém olha? Como vou saber.
O fato é que as coisas estão, não são. Estamos em uma sociedade construída nos moldes que conhecemos, e, fato é, que não conseguimos nunca imaginar algo muito diferente do que conhecemos. Não conseguiríamos imaginar a internet, NUNCA, enquanto não tivéssemos computadores. Antes isso era impossível. Pense só. Computador! Como isso surgiu? Surgiu baseado em máquinas de escrever, máquinas de escrever eletrônicas, computadores imensos, de andares, que faziam cálculos de calculadoras... E se não tivéssemos inventado as calculadoras? Ninguém imaginaria a calculadora, enquanto não tivéssemos necessidade de fazer contas, o ábaco oriental... As coisas são resultado do somatório das aquisições da sociedade. Desde a escrita a sociedade passou de uma fase de tempo circular, do eterno retorno (Pierre Levy) para outra de tempo linear. A escrita e a agricultura têm algo em comum, e que tem a ver muitíssimo com a noção de tempo linear, que não volta: enquanto antes da escrita os mitos eram contados e recontados pelos mais velhos, em um eterno retorno, com a escrita o conhecimento pôde se tornar emancipado da memória e do tempo de vida útil dos seres humanos. A escrita legou o conhecimento ao futuro, e exigiu das pessoas a capacidade de postergar. Assim como a agricultura: quando se planta esperando que a semente vire uma planta e depois dê os frutos que usaremos para nossa alimentação, estamos condicionando nossa existência ao fato de conhecermos a ação de delegar algo ao futuro, que chegará, basta esperar. Acreditar que de um pedaço de um milímetro cúbico vai nascer, bastando que eu a enfie num chão marrom e úmido, uma árvore que me dará alimento, é um exercício incrível de fé, no qual o homem se lança para a agricultura.
Fé. Depois desmerecem isso. Se o homem não tivesse fé sem razão àquela época, não teríamos chegado onde estamos. Imagina o homem que, pegando a semente dissesse: não é possível que isso nasça! É inconcebível que de uma coisa tão pequena nasça uma árvore tão grande. Essa semente não pode conter tudo que formará as árvores, pois eu cortei-a pela metade e não vi as folhas, eu não vi os galhos, as raízes. De onde isso pode surgir com o tempo? Essa semente não funciona. É mistificação. É fé. É crer em algo não provado. Vou continuar caçando e sendo nômade até ter uma explicação.
O homem simplemente percebeu que, onde se alimentavam dos frutos e jogavam as sementes fora, as árvores surgiam melhor. Nada mais fizeram do que repetir ação (não de maneira tão simplória como conto) e perceber que aquilo dava um certo resultado. Pronto!
Mas esse post de 4 páginas do Word começou por outro motivo, totalmente diferente, aliás. Cada um de nós é uma lente, que distorce a realidade, lembra? Distorcemos e construímos, para nós e para os outros. Mas aí vem o pensamento: se existem 6 bilhões de mundos no mundo, porque alguns gostam tanto de dizer que o deus dos judeus é o deus dos muçulmanos e é o deus dos espíritas e dos católicos?
Arriscaria dizer que nenhum espírita pensa em deus da mesma forma, nenhum protestante vê deus com a mesma imagem mental. E isso, que já é próprio de todas as coisas (o que é amor pra você? O que é um rio encontrando o mar pra você? Qual a imagem que você tem? É semelhante a minha?), em Deus fica mais patente ainda.
Não é a toa que Descartes, que negou todas as coisas para poder repensa-las, e tendo negado até Deus, concluiu mais tarde que Deus deveria existir. É uma imagem tão superior ao próprio homem, é uma figura tão mais sublime que nós mesmos, que o homem não poderia ser o gerador dessa crença. Alguma idéia inata deveria existir.
Enfim, como milhões de católicos podem crer em um mesmo deus se eles não pensam da mesma forma nem quando lêem a palavra “porta”. Uma porta vermelha? Azul? Grande, transparente? De madeira? Vidro?
Deus não cabe no pensamento humano. Rohden diria: o infinito seria o infinito se circunscrito? Deus seria deus se em nossa inteligência coubesse? Tente raciocinar sobre Deus. Nossa mente dá um nó até quando pensamos sobre física quântica, quando pensamos sobre genética avançada, quando pensamos em matemática avançada, e exigimos que seja fácil entender Deus. Aliás, cabe uma pergunta: se fosse fácil entender Deus, isto iria colaborar ou ir de encontro a lógica da existência de Deus? Se a idéia de Deus fosse banal e a todos absolutamente desvendável, isso viria provar de vez, que deus existe, ou, ao contrário, iria convencer-nos de que não passa de uma invenção social?
Cinco páginas. Esse post está fragmentadíssimo. Nem terei paciência de reler. E poucos terão de ler. Um dia reescrevo este texto. Deve estar cheio de erro de digitação. Peço desculpas pela texto prolixo e desconexo e sem objetivo.
Apenas elucubrações.
Até.
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