quinta-feira, outubro 21

Um Velhinho...

Um senhor ia pela rua, olhava para baixo, como se observasse cada ladrilho do caminho. Mas não, olhava para baixo para não ter que cruzar olhares; quando algo nos incomoda, preocupa, os olhares se assemelham a julgamentos, invasões do que se considera nosso: o pensamento.
E o velhinho seguia por mais um quarteirão, depois outro, mais uma rua, descia uma viela. Dos seus olhos não se via sequer a luz que costumava ali habitar. Seu andar não parecia um andar de quem procura, mas um andar de quem foge sem saber para onde.
Mas fugia de que? Fugia de que o digno velhote? Fugia de homicidas, psicopatas, fugia de loucos, ladrões? Fugia do governo, da polícia, fugia da rinite, das dores da velhice?
Não. Fugia da vida, da solidão. Fugia da noite escura de um apartamento vazio. Fugia de uma cama de casal onde um só dorme. Fugia do medo da morte que por vezes acomete todo mundo. Fugia da tristeza de saber que ao dormir, acordaria sem alguém pra dizer bom dia. Fugia ao pensar que, ao morrer, lembrariam dele após alguns meses sem pagar o condomínio. Fugia, simplesmente, pois era a única coisa que não tinha esquecido de fazer.
Até que, um dia, vieram buscá-lo. Neste dia o velho, feliz, foi sem qualquer cerimônia.
(Vinícius Diniz)






Um comentário:

Pelvini disse...

já disse que esse é o seu texto que mais gosto?

- então.