sábado, novembro 6

O Poeta e a Rosa (e com direito a passarinho)

"O Poeta e a Rosa"
(e com direito a passarinho)

Vinícius de Moraes


Ao ver uma rosa branca

O poeta disse: Que linda!

Cantarei sua beleza

Como ninguém nunca ainda!



Qual não é a sua surpresa

Ao ver, à sua oração

A rosa branca ir ficando

Rubra de indignação.



É que a rosa, além de branca

(Diga-me isso a bem da rosa...)

Era da espécie mais franca

E da seiva mais raivosa.



- Que foi? - balbucia o poeta.

E a rosa: - Calhorda que és!

Pára de olhar para cima!

Mira o que tens a teus pés!



E o poeta vê uma criança

Suja, esquálida, andrajosa

Comendo um torrão da terra

Que dera existência à rosa.



- São milhões! - a rosa berra

Milhões a morrer de fome

E tu, na tua vaidade

Querendo usar do meu nome!...



E num acesso de ira

Arranca as pétalas, lança-as

Fora, como a dar comida

A todas essas crianças.



O poeta baixa a cabeça.

- É aqui que a rosa respira...

Geme o vento. Morre a rosa.



E um passarinho que ouvira

Quietinho toda a disputa

Tira do galho uma reta

E ainda faz um cocozinho

Na cabeça do poeta.

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