terça-feira, novembro 9

Na estrada...

Na longa estrada da vida temos muitos exemplos, poucos deles são realmente apreciados. E digo isso - sem rodeios - baseado da história de uma criança, inocente como toda criança de verdade, da qual certa feita ouvi falar, e da qual certamente não me esquecerei.

-X-

Era tarde. O sol se recolhia, dando o exemplo do que deveria ser feito por todos. Mas uma pessoa não o imitaria, imitaria talvez a lua: nostálgica em seu solitário tormento. Pelo menos assim a vêem os menos românticos, como a moça cujos olhos não faziam outra coisa além de chorar. Choravam ambos os olhos, turvando sua vista. Mas não turvavam sua dor, isso não. A dor de quem perdeu o marido, em tenra idade, a dor de quem perdeu um companheiro, oprimia o peito, o que a fazia pensar que a única válvula seria a lágrima incontida.

À porta, a mãe da viúva chega com os olhos brilhando, daqueles que seguram o choro com as pálpebras, e evitam piscar para que uma lágrima não precipite.

- Há uma visita para você.

- Hoje não atendo ninguém. Não estou a fim de falar. - Respondeu com dificuldade a moça.

Após uma pausa a mãe continuou.

- É o Daniel. Ele está com um vaso de flores.

- Qual Daniel? - Pergunta a viúva.

- O aluno da sua escola.

Aquiesceu com o rosto, balançando a cabeça. A mãe foi chamar o jovem enquanto a viúva (diretora de uma escola) enxugava as lágrimas o mais que podia. Alguns minutos depois, abrindo a porta, a criança, de 5 anos, com um vaso de flor pequeno, mas que mal cabia em suas mãos, andou até a diretora, entregou-lhe o vaso e disse:

- O moço da floricultura disse que se chama Fortuna. - E sorriu o sorriso que só as crianças possuem.

A diretora não falou nada. E nem conseguiria. Via o tesouro que tinha à frente, valia muito mais do que qualquer fortuna: um coração bom.

A criança sentou-se ao lado da sua diretora e disse:

- Sua mãe me contou que a senhora não está muito bem, e talvez fosse melhor eu voltar outra hora. Mas eu vim justamente por você não estar bem, né! Aí pedi a ela pra me deixar entrar. A senhora não precisa falar nada, vou ficar aqui do seu lado também sem falar nada, só pra fazer companhia.

Colocou sua mãozinha sobre a da diretora e completou:

- Te amo, tia Regina.

Fechou os olhos, encostou na sua tia do colégio, e ficou assim, mudando as vezes de posição, até que a diretora e amiga acalmasse.

Duas horas depois ia embora, e ainda completou, do alto de seus 5 anos:

- Tia Regina, a senhora pode contar comigo.

Colocou as mãos nos bolsos, andou para a porta e se foi. A lembrança, no entanto,
nunca saiu do coração da diretora. Nessas horas, o silêncio, a companhia, valem muito mais do que as palavras.

Nenhum comentário: