[Ocorrido em: 22, terça | fevereiro de 2005]
[Juiz de Fora | MG]
Olhei pro céu espremido entre os prédios que corriam de ambos os lados da rua, todos de quatro andares. Em cada um várias vidas, histórias. Fazia tanto tempo que eu não ficava simplesmente olhando o nada, que o “acaso” se reservou no direito de me obrigar a fazê-lo. Não me preocupei com o relógio.
Eu estava sentado na beirada do passeio. O sol se escondendo cedo me lembrava que o horário de verão havia acabado. Meu compromisso era dali a mais de hora, e a solução era esperar, olhando o movimento.
Crianças, saindo da Escola Normal, brincando e gritando. Uma senhora, passeando com seu cachorrinho preto. Alguns garotos de bicicleta, que em poucos minutos de conversa já “brincavam de brigar”. Carros, carros, motos, carros, vento, gente. Cheiro de pão saindo do forno na padaria da esquina.
No meio de tanto pensamento fiquei foi com preguiça de tirar o celular do bolso da calça jeans e olhar as horas. Ainda faltava um bocado de tempo, pensei. O movimento diminuía. Depois de certa hora após as seis, o ibope maior era destinado aos chuveiros ligados - o vapor grudando na janela dos banheiros de toda a cidade - e às TVs que insistiam em fazer parte da rotina. As paredes dos apartamentos mudavam de cor, simultaneamente, fruto das cenas que o tubo de imagem das televisões projetava. Quase não passava mais gente, é que eu estava numa rua secundária, de uma mão só.
Depois de um tempo comecei a voltar ao mundo: me preocupei com o horário. Ao primeiro que passasse eu perguntaria as horas. Logo que via alguém verificava o pulso do sujeito para saber se andava com um relógio. Mas pro meu azar – ou minha sorte – ninguém usava.
Porém, ainda tive tempo de aprender uma lição. Quando me preparava pra pegar o celular do bolso vi um casal preocupado, de uns 35/40 anos, andando de um lado para o outro. Olhavam para o nome da rua, depois tentavam – creio eu – localizar em que parte da rua eles estavam. Um menino – que provavelmente vinha atrasado da escola – com sua mochila nas costas, chutando as pedras e folhas do chão, chegava perto deles. O casal ficou parado, olhando para o garoto que se aproximava absorto em pensamentos só seus. Eu, a uns 10 metros, observava a cena, a rua em silêncio. Assim que os olhos do menino encontraram os olhos de um dos membros do intrigante casal, fez-se a oportunidade:
- Será que você poderia me dizer onde é o hospital?
Eles não estavam longe. O hospital Ana Nery podia ser visto por mim, e distanciava no máximo umas 10 casas do local em que eles conversavam.
O menino olhou pra eles e abriu um sorriso de quem sabe responder uma pergunta muito importante. Do alto dos seus 7 ou 8 anos, chamou-os e levou-os até a porta do hospital. Deixou o casal na entrada e atravessou a rua para o lado onde eu estava. Ele veio andando, meio que pulando como só as crianças fazem, depois diminuiu o passo, quase perto de mim. A rua estava deserta e ele não havia me visto. Quase parando de andar, o garoto olhou para cima e disse a meia voz, logo antes de sair correndo feliz para casa:
- Obrigado por me deixar fazer uma boa ação.
Nem que quisesse conseguiria levantar. Mil coisas passaram no meu pensamento... Quantas oportunidades não nos são oferecidas, diariamente, e a gente fica achando que só é importante aquele que move as montanhas sozinho. O trabalho silencioso e cotidiano, daqueles que vêem a oportunidade de fazer o bem em cada ação, é o que verdadeiramente contribui. O famoso exército de formiguinhas...
Cheguei 5 minutos antes da hora marcada, era perto de onde eu ficara sentado. O local destinado à reunião, na Rua Espírito Santo, pertinho da Independência, estava vazio. Acho que eu devia ter ficado mais 5 minutos onde eu estava, refletindo, mas o tempo é implacável.
Nunca canso de aprender com as crianças... E o mais bonito, elas ensinam sem pretensão.
PODCAST ENTRE ASPAS
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