Desci na rodoviária sentindo algo que não era comum. Olhei em volta e lembrei-me daquela estação do filme “Central do Brasil” na qual o garoto fica sozinho, com as pernas encolhidas, fechado em si e chorando, enquanto os trens apitavam. Eu sei, eu sei... é exagero meu. Mas parecia aquilo, mesmo sem um motivo concreto para tal digressão.
O silêncio era irritante, porque rasgava a noite, impunha lembranças. Aquelas pessoas dormindo nas cadeiras, as malas de um lado, as memórias paradas do outro, a eternidade da noite fora de casa prostrada em pé ao lado de cada um deles... Olhei o relógio. Meu ônibus não tardaria.
No encalço da noite ia todo tipo de desilusão: amada pelos poetas, freqüentada pelos bêbados, meio de vida dos profissionais liberais mais liberais do mundo. Na maioria das vezes a história começava em uma rodoviária e tinha a noite como testemunha. No terceiro banco à esquerda ouvi alguém engolindo os pensamentos. Não entendi muito bem, por não possuir a capacidade – graças a Deus! – de conhecer a casa mental alheia. Distraí-me, conferindo as horas, até que minha atenção foi novamente convocada, dessa vez por um ruído mais alto. O homem fazia sons parecidos com aqueles que as crianças produzem quando o choro acaba e o soluço continua. Abriu as mãos que antes jaziam espalmadas, por onde vi algumas moedas brilharem. Nada que fosse superior a 1 mísero real. Fechou as mãos, em seguida, e, com outro soluço, enclausurou-se em si mesmo.
A solidão talvez seja o mais cruel dos sentimentos. Eu tinha um destino, isso me diferenciava da maioria daqueles que esperavam um não-sei-o-quê, vir de não-sei-onde. Tinha uma meta: aquela rodoviária era um meio, não um fim. Olhava para aqueles que estavam perto de mim; tentava adivinhar, que arrogância, a vida de cada um. Traçar algum aspecto que os ligasse, criar uma justificativa íntima acerca da razão pela qual aquelas pessoas me pareciam tão soturnas. No silêncio apenas o que chama atenção é o barulho. O movimento já não importa muito. Um estrondo, vindo de algum lugar atrás de mim fez com que eu me virasse, sem pressa. Uma senhora, de uns 67 anos, baixinha, carregando uma bolsa quase do seu tamanho, havia deixado alguns pertences caírem. Seu olhar parecia-me perdido, sem porquê, como que existindo por existir. Pegou a sacola que caíra, olhou para as cadeiras, contou da ponta até chegar no sétimo banco e sentou-se. Tirou da bolsa um travesseiro bem grande e uma coberta. Começou a se ajeitar cuidadosa, sistemática.
Comecei a andar em direção a escada que levava à plataforma de embarque. Não consegui deslocar os olhos da senhora. Mais uma vez os ruídos. Meu tênis, raspando naquele chão sintecado, soltou um assovio que ecoou por todo o saguão. A senhora olhou para mim e sorriu. E sorriu.
Ao embarcar levei o estorvo daqueles que enxergam em si a morte dos outros, mesmo que uma morte social. Deixei-o, porém, tão logo lembrei do sorriso da senhora, tão pleno, tão self-made, tão sem razão!
PODCAST ENTRE ASPAS
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