Aquele instante se desprendeu do tempo como uma folha arrancada da árvore por uma ventania de inverno. Dei um passo em sua direção e olhando para o lago de sua alma, vi-me refletido, disforme embora. O vento sobre as águas, sincronizado com minhas expirações, fazia sentir-me integrado a sua vida, como duas ondas que se encontram, para nunca mais se poderem distinguir. Mais um passo para me encontrar a ponto de precipitar-me sobre a água de teus sentimentos, quando tua voz, embargada pelo peso da sua história, soprou-me longe, sustendo-me no meu próprio mundo mais alguns momentos. Tenho medo. Fazendo uma força apenas possível quando imaginei que cada músculo era uma corda que eu puxava ouvindo o amor sussurrar palavras de motivação em meus ouvidos, aproximei-me novamente. A sua simples presença inconteste, fez minha voz ficar ausente. Não sei quanto tempo, mas de repente percebi que já não respirava. Era como se tudo houvesse parado, o mundo, as ondas, nós dois. E então respirei. Olhei para mim em seus olhos, e essa simples remissão me fez tremer, nas pernas já não havia força bastante para segurar o peso da eternidade. Não tenha medo. E nossos olhos se fecharam juntos, não vi. Não se fecha os olhos, mas sim passa-se a olhar pra dentro. E dentro só podia ver a você, e você, só a mim. Nós nos olhamos, interiormente, e nos aproximamos. Foi quando dentro de cada um nossos dedos se tocaram... Todo um abismo que nos separava fora suplantado por atividade ígnea sempre proporcional àquela acontecida no coração dos amantes. Dois passos nos separavam, embora já nos encontrássemos juntos em outro plano. Aproximei-me o que me cabia. Olhei em seus olhos. Silêncio. Ouvi uma gota de orvalho escorregar de uma folha aos meus pés, raspando em suas pequenas ondulações e com um pequeno estrondo chegar ao solo. Silêncio. Nossa respiração, nossos corações. Um passo, basta um passo. Fechei os olhos. Barulho. Um passo! Para onde? Para trás? Para mim? Silêncio. Calor. Nossos corações se encostam. O meu falha uma batida. Apenas para seguirem juntos. Como um só. Pela eternidade.
PODCAST ENTRE ASPAS
domingo, janeiro 7
Por incrível que pareça, escrito de sábado pra domindo, as 2:40 da manhã, por conta da matéria de cinema, da teoria neo-realista. Eles dizem que história pode ser supérfluo, pode-se fazer um filme apenas sobre um pequeno acidente, explorando as diversas facetas humanas, morais e estéticas dele. Aí resolvi fzer um teste. Não pensei em nada. Escrevi o começo "Aquele instante se desprendeu" e daí fui escrevendo de acordo com a lógica q ia surgindo. Enfim. Mais um exercício. Vou fazer mais desses.
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